O sabor e o aroma da planta
Como os terpenos direcionam as diversas experiências com a cannabis e sofisticam o mercado ao redor do mundo
Por Breeza
O que costumamos fazer ao pegar uma flor nas mãos? Cheiramos. Sentimos o aroma que, como no caso da cannabis, influencia também no sabor. “Levamos ao nariz pra ver se vai vir aquele tapa dos terpenos”, opina aqui a cultivadora e hashmaker Carol Mafra, a “Atriz Cannabica” no Instagram, que ministra cursos de cultivo e é jurada de competições internacionais. “(pelo cheiro) Consegue-se ver se planta foi colhida na hora, se houve ou não excesso de fertilizantes, se o aroma depois combina com o da fumaça”, completa ela, elencando o que é possível cheirar na erva.
Se o THC e o CBD são como os motores que fornecem a potência da cannabis, o efeito terapêutico que apreciamos; os terpenos são volantes que direcionam a brisa, e não só no aroma e no sabor. São compostos aromáticos voláteis sintetizados nas mesmas estruturas glandulares que produzem os canabinóides, os tricomas que cobrem as flores maduras. A natureza não criou os tricomas (apenas) para o nosso prazer sensorial, pois são também algo como uma sistema de defesa e sobrevivência da planta, pois monoterpenos mais leves e voláteis ajudam a afastar insetos e herbívoros sob o calor do sol, enquanto sesquiterpenos mais densos protegem a flor contra fungos e estresse ambiental.
Os terpenos estão em toda parte: na casca da laranja (limoneno), nas agulhas do pinheiro (pineno), nas flores de lavanda (linalol), na pimenta-preta (cariofileno), na cannabis. O farmacologista, pesquisador e empreendedor Fabricio Pamplona, referência na cena da cannabis e da divulgação científica, indica que se observe eles para além do aroma, não como “uma coisa meramente cosmética”, destacando no caso da maconha: “Se sentimos um cheiro, significa que há uma ‘química’ percebida pelo cérebro e que pode atuar no nosso organismo. Quando você sente cheiro de limão por causa do limoneno, de pinho por causa do pineno ou aquele perfil mais floral associado ao linalol, não estamos falando só de uma experiência olfativa, algumas dessas moléculas conseguem entrar no organismo, atravessar membranas e interagir com diferentes sistemas de neurotransmissão”.
Os terpenos diferenciam as strains de cannabis, a experiência do uso e há quem defenda que também a experiência terapêutica. Por isso, selecionar os tipos que mais te agradam é um passo importante para escolher o efeito que se quer ter ao usar a flor, da forma e com o objetivo que for. Vamos te levar por uma introdução de como compreender os terpenos, para optar pelo seu preferido, em um conhecimento que pode transformar a relação com a planta para além do “qual é a porcentagem de THC?; e de CBD?”.
Para além do cheiro
Embora a cannabis possa produzir mais de 150 tipos de terpenos, quatro deles costumam dominar o perfil aromático das genéticas mais populares:
- Mirceno (terroso e relaxante): Abundante em plantas de efeito mais físico e sedativo, com o famoso couch-lock. Traz notas de terra, almíscar e frutas tropicais maduras, sendo a mesma molécula encontrada na manga e no lúpulo das cervejas IPA.
- Limoneno (cítrico e eufórico): Com aroma marcante de limão e casca de fruta cítrica, é associado à elevação do humor, ao foco e ao alívio do estresse. É o responsável pelo perfil de genéticas clássicas das famílias Sour (ácida) e Lemon (limão).
- Beta-Cariofileno (picante anti-inflamatório): Tem um diferencial químico único: é o único terpeno conhecido que se liga diretamente aos receptores CB2 do nosso corpo. Entrega notas apimentadas e atua como anti-inflamatório.
- Pineno (aroma de floresta): O composto aromático mais comum na natureza. Traz frescor de pinheiro e alecrim, e tem função de broncodilatador, ou seja, abre as vias aéreas e melhora a respiração.
Nota-se que os terpenos têm efeitos para muito além do sabor e do aroma, influenciando no relaxamento, em processos anti-inflamatórios e mais. A ciência ainda está descobrindo quais são as propriedades dos terpenos, e bom destacar que, mesmo as que ressaltamos acima, estão sob debate.
Para Fabricio Pamplona, há exemplos mais consolidados: “O limoneno é provavelmente o mais interessante, um estudo controlado da Johns Hopkins administrou THC e diferentes doses de d-limoneno em humanos e, em algumas condições, o limoneno reduziu significativamente as sensações de ansiedade e paranoia produzidas pelo THC, sem simplesmente diminuir toda a experiência do THC”.
Como se tratam de pesquisas que ainda estão avançando, muitas vezes percepções que temos na experiência do uso e que se espalham entre as rodas, não são confirmadas pela ciência, e não raras vezes são contestadas. “Durante anos circulou a hipótese de que o alfa-pineno poderia reduzir o prejuízo de memória provocado pelo THC porque ele inibe uma enzima chamada colinesterase, mas, em 2025, pesquisadores testaram isso em humano, e o THC piorou memória e desempenho cognitivo, como esperado, sendo que o pineno não corrigiu esse prejuízo”, acrescenta o pesquisador e empreendedor da área.
Mesmo ainda com dúvida em torno de todos os efeitos dos terpenos, o que se sabe é que eles têm papel na experiência de uso, o que vale para além da fumaça ou das gotas do óleo. Caio Cezar, chef do canal de gastronomia canábica Cozinha 4e20, dá uma dica que vale para o preparo no fogão, assim como para escolher a strain do seu gosto: “Um dos caminhos mais simples e funcionais para escolher terpenos é pensar em quais alimentos eles também se encontram, ou a quais combinações clássicas da cozinha eles remetem. Por exemplo: mirceno é muito presente na manga, logo strains que tem muito mirceno (Mango Kush, Northern Lights, Granddaddy Purple, pra citar algumas) vão combinar com manga, capim-limão, banana, laranja e outros ingredientes que contenham mirceno. Chocolate combina com manga ou com capim-limão? Combina, então posso usar chocolate com mirceno”.
Para quem é da culinária, ele dá algumas dicas de como valorizar os terpenos nas receitas: “Os terpenos são muito voláteis, então o calor é o maior inimigo deles. Por outro lado, não tem como fazer a descarboxilação ou a infusão sem calor. Para a descarboxilação, o segredo é colocar o material dichavado dentro de um pacote de papel manteiga ou papel alumínio. Descarboxile pelo método lento (aproximadamente 45 minutos a 110º, forno pré aquecido). Ao retirar o pacote do forno, não abra imediatamente. Espere esfriar completamente, os terpenos que evaporaram e ficaram presos no pacote vão condensar”. Outra sugestão é que “uma trima muito bem feita também ajuda muito na percepção dos terpenos, pois evita a necessidade de lavagem e tira o gosto de clorofila”. E como gorduras saturadas retém mais canabinóides, que são lipossolúveis, manteiga e óleo de coco costumam ser mais eficazes em reter alguns canabinóides e terpenos.
Na hora da colheita, é preciso ficar atento a variantes como maturidade das flores, a cor dos tricomas e o tempo de secagem, assim como em elementos ambientais (temperatura, umidade, luz). Carol Mafra compartilha alguns de seus segredos: “Tenho a prática de tratar plantas como pessoas, parte da família, aí converso com elas todos os dias, às vezes canto, coloco músicas clássicas, mantras, assim sei que cuido ao máximo do estímulo para proporcionar terpenos, canabinóides, flavonoides”.
Todavia, a forma mais garantida de saber a qualidade de uma flor e qual é sua composição, inclusive sobre os terpenos, é ter certeza da procedência da planta. Há testes laboratoriais e sensoriais que garantem o que há dentro de uma strain, mas isso só chega de verdade ao consumidor em um mercado totalmente legalizado.
E para além do THC
O usuário mais regular, porém, ainda costuma estar atento mais a porcentagem de THC e CBD, além da presença de alguns outros canabinóides, do que aos terpenos. Um cenário que está gradualmente mudando conforme há o processo de legalização nos países, como no nosso Brasil, com a ampliação do acesso ao conhecimento sobre a planta e às diferentes cepas.
“A gente vive um proibicionismo muito limitador e, nesse contexto, acho que as pessoas estão mais preocupadas em acessar sua medicina e preparar de forma a preservar os efeitos principais”, comenta o chef Caio Cezar. “Terpenos isolados são caros e seu uso demanda um estudo super específico de nicho, então acho que a prioridade primeira é legalizar, mas os terpenos têm um papel de auxílio fundamental na normalização da cannabis, levando o nome da planta para lugares onde antes ela não entraria, como mercados, cervejarias e restaurantes”.
O mercado mundial e nacional (com o medicinal, legalizado) está também se sofisticando, tanto na produção quanto no consumo. Como nos aponta o farmacologista e empreendedor Fabricio Pamplona: “O mercado está lentamente amadurecendo, particularmente no Brasil. Estamos agora vendo o início de uma sofistacação que é comum há décadas na Holanda, e que gradativamente foi se espalhando também pela América do Norte. Durante muito tempo a lógica foi quase a mesma da cachaça: ‘quanto mais forte, melhor’”.
O raciocínio agora é de que aumentar o THC não necessariamente melhora a experiência, pode até ser pior para algumas pessoas, então quando o mercado começa a amadurecer, aparecem outras dimensões de qualidade, como aroma, sabor e perfil terpênico. “Algo parecido com o que aconteceu com café, cerveja e vinho. Ninguém escolhe um vinho excepcional perguntando apenas ‘qual deles tem mais álcool?’”.
Um desafio para avançar nas pesquisas sobre os potenciais do terpenos é despertar o interesse do público, que além de mais atento aos canabinóides, muitas vezes não consegue ter tempo de se atualizar a toda hora sobre um tema que não para de progredir na ciência. Aqui nesta reportagem tivemos um panorama de como avançamos no que sabemos sobre os terpenos, e Fabricio Pamplona dá uma dica para tentarmos espalhar esse conhecimento: “Eu comunicaria terpenos muito mais como moduladores potenciais da experiência do que como moléculas com efeitos determinísticos. Em vez de dizer ‘mirceno dá sono’, dizer ‘produtos ricos em mirceno podem ser mais relaxantes’. Pode parecer menos sexy, mas é muito mais sério. Talvez a grande evolução seja justamente aceitar que a cannabis é uma planta complexa, e que cada strain entrega uma experiência subjetiva quase única”.
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