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O abecedário da cannabis

Breeza • 07.08.2026

THC e CBD estão no centro, mas a ciência, a medicina e o cultivo têm revelado muito mais do poder dos canabinoides minoritários, abrindo portas para diversos benefícios da erva

Por Breeza

No cultivo da cannabis, a conversa durante décadas parecia um jogo muito restrito a duas peças: o THC, que ficou como o motor da psicodelia, da onda; e o CBD, a molécula que colocou a planta nas farmácias e faz com que remédios de canabidiol sejam legalizados no país.

Mas basta dar um passo para dentro de uma estufa de cultivo ou olhar com atenção através de uma lupa para perceber: a maconha não é um dueto, é uma orquestra inteira. “Os canabinoides foram descobertos nos anos (19)60 e, para o tempo da ciência, isso não é um período longo, só comparar com outras moléculas, como a morfina, da papoula, descoberta ainda no século 19”, contextualiza Renato Filev, neurocientista, coordenador científico da Plataforma Brasileira de Política de Drogas, e uma das maiores referências científicas em cannabis no país.

A história da descoberta dos canabinoides é um marco da ciência moderna, liderada pelo cientista israelense Raphael Mechoulam (1930–2023). Até o início dos anos 1960, ninguém sabia qual era o composto exato responsável pelos efeitos da maconha. Em 1963, trabalhando no Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, Mechoulam e sua equipe conseguiram uma licença para obter cinco quilos de maconha apreendidos pela polícia israelense para iniciar os testes.

“Com o tempo e o avanço da técnica e dos métodos, junto com a sensibilidade dos aparelhos, a ciência foi mais capaz de detectar moléculas que estão em outra ordem de grandeza”, avalia Filev. Ele explica que THC, CBG, CBD, CBN estão numa ordem de grandeza mais aumentada, enquanto outros canabinoides estão numa ordem de grandeza bem menor, em medidas micromolar ou nanomolar.

Em um curto período, a equipe de Mechoulam fez descobertas pioneiras. Em 1963, isolaram o CBD e, um ano depois, o THC, provando ainda que ele era o principal responsável pelos efeitos psicotrópicos. Desde então, a ciência desvendou que a planta produz mais de uma centena de fitoquímicos e dezenas de terpenos, e a nova fronteira da medicina canábica e do cultivo busca a engenharia fina com os canabinoides minoritários, com compostos como CBG, CBN, THCV e CBC.

Uma Comitiva de Moléculas

Em 1998, Raphael Mechoulam e o pesquisador Shimon Ben-Shabat publicaram um estudo seminal em que descobriram outra propriedade da erva: o Efeito Entourage. Esse conceito hoje explica porque a planta inteira da cannabis tem um efeito terapêutico superior, mais amplo e com menos efeitos colaterais, do que o uso de canabinoides isolados em laboratório. Trata-se do princípio de que os compostos canabinoides (THC, CBD, CBG, CBN), os terpenos e flavonoides trabalham em orquestra, potencializando as virtudes, inclusive as propriedades medicinais, uns modulando os outros.

“Sem dúvidas, o full spectrum é melhor que os isolados, a planta como um todo funciona muito melhor, e isso é uma lógica que se aplica a todas as plantas medicinais, tanto que se fala do fitocomplexo”, comenta a médica Mariane Ventura, referência no atendimento clínico com o uso de canabinoides. Devido ao Efeito Comitiva, a planta full spectrum traz vantagens como atingir melhor a dose terapêutica, ser mais tolerável aos organismos e também gerar menos tolerância e resistência aos efeitos, conforme o tempo de uso.

Filev defende que “uma ação de comitivas de moléculas, ou de ativação de diversos alvos no nosso organismo, podem prover um efeito mais intensificado”. Para o neurocientista, foi um movimento natural os estudos terem partido do THC, por ser a principal molécula psicotrópica da planta, depois terem ido para o CBD, por sua atuação terapêutica que desperta interesse, e mais recentemente ter começado a explorar a planta como um fitocomplexo, ou seja, uma comitiva com a ação de outras moléculas canabinoides.

Mariane Ventura destaca que tem prescrito mais medicamentos com base nas minoritárias: “O CBG é interessante para pacientes com TDAH ou com dor, mas que são sensíveis ao THC. CBN é excelente para insônia crônica, ajuda a desmamar de outras medicações para o sono, e sem trazer aquele efeito inicial de euforia do THC. Já o THCV é para quem quer emagrecimento, ou pacientes em tratamentos, como de dor crônica, mas que em paralelo também estão preocupados com o emagrecimento”.

A Alquimia no Jardim e na Estufa

O cultivador é o alquimista que decide quanto de cada uma dessas moléculas vai parar no frasco do paciente. Em termos simplificados, conforme a flor amadurece, são acionadas enzimas específicas que devoram o CBGA (pode ser tido como a molécula mãe de canabinoides) e o transformam em THCA, CBDA, CBCA. Três pilares determinam qual canabinoide vai predominar na colheita: a cor do tricoma, a luz UV e a colheita e pós-colheita.

Quando os tricomas estão cristalinos, é o ponto cume do CBG, quando as enzimas ainda não converteram a molécula-mãe. Conforme ficam leitosos, é a síntese de THC e CBD, quando se dá a janela da potência máxima. E ao passarem a ser âmbar, é sinal de degradação do THC, dando origem ao CBN.

Para quem cultiva em escala associativa, o desafio é grande, visto que é preciso garantir a quantidade de moléculas canabinoides nos medicamentos. “Partimos de plantas madres do nosso banco genético, que começou com 4 mães, sendo duas ricas em CBD, uma mais equilibrada e uma rica em THC, e hoje temos mais algumas madres”, contextualiza o farmacêutico Gabriel Siciliano, responsável pela produção da associação AbraRio.

Ele compartilha que a plantação da AbraRio é outdoor, então se usa muito a luz solar, sendo que no início se faz um complemento com LED para chegar às dezenove horas diárias, sendo outras cinco horas apagadas. Nas semanas de floração, passa para o ciclo de 12 e 12 horas, com mais rega no início, menos quando próximo do final da colheita. Evidentemente, são controlados fatores como a adubação do solo, feita de forma 100% orgânica.

Todos os extratos têm amostras analisadas em laboratórios terceirizados, responsáveis por garantir que as proporções, como de THC e CBD, estão sendo respeitadas em óleos, pomadas, sprays nasais e outros produtos. O cultivador conta que a associação tem recebido mais pedidos personalizados de médicos, ressaltando canabinoides minoritários. “Só que é bem complicado atender, porque a gente busca sementes com maior tendências para os minoritários, mas no momento em que cultivamos as madres e criamos clones, o produto final muda”, diz.

A associação está próxima de cultivar uma madre que deve ser responsável pelo lançamento de uma linha de CBG em 2027. “Com os avanços no conhecimento da cannabis, também temos pensado em linhas de CBN e THCV”, complementa Martins. A planta traz um grande abecedário, e ainda temos muito a desvendar.

Algumas das letras que estão pop

Canabinoides minoritários que estão ganhando as conversas nas rodas:

Canabinoide Foco Origem Química No Cultivo
CBG (Canabigerol) Não psicotrópico, bom para foco mental, neuroproteção, e com ação anti-inflamatória potente e alívio da dor sem efeito pesado Deriva do CBGA (a molécula-mãe), obtido antes que a planta ative as enzimas para convertê-lo em THCA ou CBDA Na colheita precoce: faça a análise visual na lupa para colher quando os tricomas ainda estão transparentes / cristalinos
CBN (Canabinol) Efeito fortemente sedativo, relaxante muscular, indutor natural do sono profundo e ansiolítico É subproduto da oxidação do envelhecimento do THC Na colheita tardia: aguardar a maturação avançada da planta até que 30% a 40% dos tricomas estejam âmbar / acastanhados
THCV (Tetrahidrocanabivarina) Clareza mental, energia, supressão do apetite, modulação da glicemia e atenuação dos efeitos do THC Sintetizado a partir do ácido divarínico (CBGVA) Exige ciclos de iluminação intensos (com inclusão de UV-A) e manejo de estresse luminoso em florações longas
CBC (Canabicromeno) Estimula a neurogênese (formação de novas células neurais), combate dor crônica e viabiliza o Efeito Entourage Deriva do CBGA através da enzima CBCA, mas geralmente permanece em concentrações baixas É preciso seleção genética estabilizada, somada à preservação de terpenos na pós-colheita. Requer temperatura de secagem rigorosamente controlada, abaixo de 20°C, para não volatilizar os sinérgicos
CBGA (Ácido Canabigerólico) Tem propriedades analgésicas e anti-inflamatórias, sendo o precursor químico dos principais canabinoides Produzido nos tricomas no início da floração Na janela de pré-colheita: foco no início pro meio da fase de floração, e exige controle nutricional preciso

Confira o texto anterior do blog da Breeza na Flora: “A semente de cada povo – conheça como as strains começaram a ser diferenciadas e por que Química e História as distinguem uma das outras”.

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