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Essas são clássicas!

Breeza • 16.10.2026

Skunk #1, Northern Lights, White Widow, Blueberry… elas moldaram gerações de cultivadores! Entenda como os breeders do século passado criaram a base da cannabis atual com as strains mais clássicas, e quais são os desafios para preservar esse patrimônio genético

Por Breeza

Basta abrir o catálogo de qualquer banco de sementes moderno para se deparar com uma infinidade de nomes chamativos, aromas de sobremesa e promessas de teores astronômicos de THC. Mas, em meio a essa enxurrada de novidades que surgem a cada temporada, o que faz com que uma genética continue sendo cultivada, procurada e respeitada depois de três ou quatro décadas? Ou seja, quando podemos chamar uma genética de “clássica”?

Para entender o mercado atual, é preciso olhar para o passado. Antes da ascensão das híbridas californianas dos anos 2010 — como a Girl Scout Cookies e a Gelato —, o mundo da cannabis passou por uma revolução nos anos 1970, 1980 e 1990. Foi nessa época que os breeders pioneiros transformaram variedades nativas e selvagens (as landraces) nos pilares da horticultura canábica moderna.

Nos diz Ivan Guedes, coordenador-geral da associação Accura e que cultiva faz mais de 15 anos: “As genéticas que a gente chama de clássicas se estabilizaram lá nos anos 80 e ganharam hype nos 90, quando começaram a estourar os coffeeshops em Amsterdã e depois na Califórnia”.

Foi também nos anos 1990 que Ivan começou a ter contato com essas strains, justamente em uma viagem para a Holanda: “Não tinha tanto essa gourmetização, como é hoje, e nem tanta diversidade. Mas as genéticas de agora são composições dessas genéticas tradicionais, criadas pelo pessoal que foi atrás desses fenótipos mais antigos para começar a cruzá-los atrás dos resultados que queiram”. Na associação que coordena, a Accura, ele conta ter começado o trabalho com as strains consideradas clássicas.

Mas o que faz uma genética ser clássica?

Para uma strain ultrapassar a barreira do “modismo” e se consolidar, não basta apenas ter uma boa história, para Ivan Guedes o segredo reside também em construir um perfil marcante e estável, que perdura sem se transformar tanto com o passar das décadas. “O que define é a estabilidade no cultivo, o rendimento, a potência de canabinoides, um aroma inconfundível”, aponta, listando os ingredientes. Genéticas estabelecidas como a Skunk #1 e a Northern Lights viraram referência mundial porque permitiram que o cultivador soubesse exatamente o que iria colher, fixando traços que atendiam tanto à produção comercial quanto ao próprio consumo.

Ou seja, há certeza de que aquela semente plantada irá resultar em flores que dão os efeitos desejados, sejam eles classificados como “medicinais” ou não. Quando se pensa em um médico receitando um óleo de cannabis, por exemplo, fica evidente a importância de se saber exatamente a composição da flor usada na formulação. Mas o mesmo vale para outros usos, como o por lazer. Num cenário legalizado, seja no Uruguai, nos EUA ou na Holanda, o cliente tem o direito de saber o que irá consumir, considerando do aroma à porcentagem de THC.

O nome de uma flor vira “clássica” quando a semente que lhe deu origem é considerada como estabilizada, com um fenótipo que permaneceu praticamente imutável ao longo de décadas. “É necessário que existam referências confiáveis, e esse é um dos principais problemas, pois há mais de 40 mil cultivares de cannabis, só que quando se faz uma análise molecular, materiais que são vendidos com o mesmo nome muitas vezes têm um perfil genético bem diferente de um para o outro; enquanto também em várias situações ocorrem de flores vendidas com nomes diferentes, terem genéticas quase iguais”, analisa a bióloga Beatriz Emygdio, pesquisadora da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), e uma das mentes que mais manjam do assunto em nosso país.

No Brasil, por isso que infelizmente não temos genéticas clássicas próprias. Sim, há a Manga Rosa, sobre a qual já escrevemos aqui na Breeza. Assim como algumas outras sementes que nomeamos ao longo do tempo, da Aracajú Red à Pernambuco Gold. Mas o cenário de ilegalidade impossibilitou que essas plantas fossem devidamente classificadas, com seus fenótipos analisados em laboratório. Então, nem é possível saber se essas strains ainda existem mesmo da forma como eram, ou se foram perdidas com o tempo.

Uma tristeza ainda maior quando se considera que sementes nossas, como a Manga Rosa, foram nos anos 1980 e 1990 usadas como base justamente para a criação de fenótipos clássicos, como a holandesa White Widow. Para Beatriz Emygdio, o que impede que ela e seus colegas possam selecionar, classificar e armazenar as genéticas brasileiras é a burocracia e o histórico de proibicionismo de nosso país. Limitação técnica, não há.

Também não é possível considerar landraces muito antigas, de milhares de anos, como clássicas. Já escrevemos sobre essas genéticas aqui no nosso espaço da Breeza na Flora Urbana, mas ocorre que, pelo ponto de vista científico, não conseguimos ainda traçar as características desses cultivares de séculos ou milênios atrás. A maconha é plantada e usada faz mais de 12 mil anos, mas só no século passado a ciência passou a diferenciar e nomear suas sementes.

Para o cultivador Ivan Guedes, uma das maiores provas que essas strains foram se perdendo é que hoje não se acham mais Sativas e Indicas “puras”. “A Sativa e a Indica são distinções antigas, que poderiam ser consideradas como clássicas, porém, hoje na prática tudo é hibridizado, foi se misturando e chegando a efeitos com certa homogeneidade”, opina ele.

Outra ressalva importante é que os resultados do cultivo dependem também muito do ambiente. Então não adianta achar que uma semente de White Widow vai crescer igual no seu quintal em Salvador ou no Rio de Janeiro, como é lá na Holanda. “Fotoperíodo, temperatura, radiação, disponibilidade hídrica, umidade, distribuição regional de doenças… muitos fatores podem afetar o comportamento da planta e o perfil de canabinoides”, comenta Beatriz Emygdio. Para ela, o segredo está em pegar essas sementes estrangeiras como referência e, ao plantar aqui no Brasil, com o tempo procurar chegar em algo novo, apropriado ao nosso solo e ao nosso clima.

Conheça 4 genéticas clássicas

Skunk #1: Desenvolvida nos anos 1970 na Califórnia por David Watson (o famoso Sam the Skunkman) e mais tarde levada à Holanda, é o marco zero da criação de híbridos modernos. Fruto do cruzamento entre duas Sativas (Acapulco Gold do México e Colombian Gold) e uma Indica puramente afegã (Afghani), foi o primeiro híbrido 100% estabilizado da história. Antes, plantar uma semente era uma loteria. A Skunk #1 trouxe uniformidade, vigor híbrido e aquele aroma ácido e almiscarado que batizou uma geração de flores.

Northern Lights: Se a Skunk #1 dominou os jardins, a Northern Lights, aprimorada nos anos 80 no lendário The Seed Bank da Holanda, viabilizou ainda mais o cultivo em ambientes fechados. Com estrutura compacta, floração rápida, alta resina e aroma mais discreto, tornou-se a referência para genéticas de predominância Indica e mãe de dezenas de híbridos usados para fins medicinais.

White Widow: Criada nos anos 90 na Holanda, tem apelo visual e potência, com flores cobertas por uma camada branca de tricomas prateados. É a semente que trouxe o foco na alta carga de resina.

Blueberry: Desenvolvida entre os anos 1970 e os 80, a Blueberry deu valor ao aroma e ao sabor. Ao cruzar genéticas nativas do Panamá, da Tailândia e do Afeganistão, isolou o aroma inconfundível de frutas vermelhas, com notas roxas nas folhas, pavimentando o caminho para o mercado atual, que destaca perfis sensoriais e que remetem à gastronomia.

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